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O  FILME  PORNÔ

Adamastor era um sujeito simples. No auge dos seus 40 anos (“Bem vividos!” - como ele sempre gostou de frisar) e com uma saliente barriguinha, nada tinha do que reclamar da vida. Morando numa pacata cidade do interior (“O paraíso na Terra!” - nas suas próprias palavras), ele tinha uma esposa dedicada, dois lindos filhos e trabalhava como corretor de seguros, emprego que, embora monótono, era tranqüilo. Desde criança que ele não se envolvia em coisas perigosas e arriscadas. Nunca “puxou fumo” ou fez “pegas” de carros. “A segurança e a tranqüilidade não se compram!” era a sua filosofia de vida.
Por causa do seu trabalho ele teve de ir para a cidade de São Paulo (“Aquela selva!” - como ele gostava de se referir à capital paulista) para uma reunião da sua empresa que, por incrível que pareça, acabou cedo. Esperando pela hora do ônibus de volta ao “paraíso”, Adamastor ficou passeando pela “selva” e, sem querer, parou na frente do cinema ALACE (na verdade, chamava-se PALACE, mas o tempo e a falta de cuidados fizeram com que o P sumisse) e viu o cartaz com sua atração do dia: “A Grande B... Erótica de B...”. Sim, era um filme pornográfico.
Tal visão o fez tremer e suar. Apesar de sua “segurança e tranqüilidade”, Adamastor tinha uma fraqueza, algo que ele escondia da mesma forma que alguém deveria esconder a senha para o fim do mundo, ou seja, desesperadamente: ele adorava assistir filmes pornôs! Tudo começou na adolescência, pois o jovem e tímido Adamastor namorava pouco - e fazia sexo menos ainda. Logo, habituou-se a assistir este tipo de filme, embora não prestasse a menor atenção nas histórias ou no roteiro (se é que algum filme pornô já apresentou alguma dessas coisas antes). O que Adamastor gostava era de ver as atrizes “em ação” e, para apimentar ainda mais sua adoração, ele sempre colocava-se no lugar do “galã”, com exceção de uma vez apenas, pois o “galã” era um cão pastor.
Adamastor fascinou-se pela atriz anunciada no cartaz, a tal de “B...” (assim como também adorou imaginar a “B...” da atriz). Ele sempre sonhou em ver uma mulher como aquela em “ação”! Respirou fundo, observou a vendedora de ingressos (cuja aparência era uma mistura de uma ajudante de médico louco com a bruxa malvada do norte), analisou o preço da entrada (irrisório, como convinha a este tipo de exibição) e mediu sua vontade de, apesar de casado e com dois filhos, expor-se ao seu “vício”. Ele optou pelo “vício”. Ninguém jamais saberá, pensou Adamastor.
O filme já tinha começado quando Adamastor entrou no cinema. Todo o público estava quieto, fixo no filme, já envolvido na escuridão do ambiente e nas sacanagens rolando na tela. Adamastor escolheu um lugar entre duas cadeiras vazias (uma das regras básicas para se assistir um filme pornô é sentar-se sempre entre duas cadeiras vazias. Por quê? Dependendo da cena, o espaço pode ser fundamental para certas atitudes proibidas e, além do mais, muitos dos que sentam na cadeira do lado podem querer “algo mais” do que apenas assistir o filme...), sentou-se e deixou que a mágica do filme o dominasse. E como dominava!
A história em si era simples: uma jovem vinda do interior (a tal de “B...) chegou numa cidade grande para trabalhar como empregada num casarão... e realmente ela  mergulhou no “trabalho”! Melhor do que isso, ela demonstrava muito jeito para o “trabalho”. Apesar das suas roupas de empregada serem do século XVIII, sua calcinha preta cortada em lugares estratégicos - ou a simples ausência da calcinha - produzia efeitos avassaladores na platéia. A “aura” do cinema estava carregada!
Adamastor estava satisfeitíssimo com o filme, até que um espectador passou na sua frente e sentou-se, bruscamente, justamente na cadeira do seu lado, balançando toda a fileira. Talvez o pior não tenha sido o tal indivíduo sentar-se bruscamente e do seu lado, mas o fato dele estar comendo pipoca e falando alto. Nenhuma restrição quanto às pipocas (com exceção dos trocadilhos infames que ela sugere), mas o falar alto... eis outra regra básica para se assistir um filme pornô: silêncio é fundamental! Nada, absolutamente nada, pode atrapalhar os sonhos do público. Homicídios dos mais horrendos já foram cometidos em todas as partes do mundo para manter esta regra sagrada.
Adamastor tentou esquecer seu incômodo vizinho e se concentrar no filme que, neste momento, apresentava a aguardada cena onde “B...” colocava sua “B...” para “trabalhar” com o galã do filme (aliás, o homem menos feio do elenco), combinando maravilhosamente a imagem da transa com a sacanagem presente na mente da platéia. Adamastor estava em “alfa, beta e gama” ao mesmo tempo!
- Essa mina é muito gostosa!!! - gritou seu vizinho, fazendo voar pipoca nas roupas de Adamastor. - Eu me mataria numa destas!!! - gritou mais alto ainda, cutucando Adamastor com seu cotovelo ossudo e duro.
“Isto é um desrespeito!” - pensou Adamastor. Juridicamente falando, o pornoespectador (expressão criada por ele para pensar no assunto) é tão respeitável ou representativo quanto qualquer tipo de público, inclusive aqueles que vão assistir as óperas no Municipal ou acompanhar as peças teatrais do Gerald Thomas. Este público, sempre excluído das grandes discussões nacionais, paga os seus impostos, cumpre suas obrigações eleitorais e estão inseridos no mundo moderno - muitos são advogados, médicos, traficantes de cocaína ou colecionadores de selos, por exemplo. Alguns chegam a comer de boca fechada durante as refeições... e chegam mesmo a ter famílias (de ver tanta sacanagem nas telas eles acabam engravidando a primeira garota que encontram pela frente  formando família!). Apesar disso tudo, sempre aparece um idiota como este e estraga o clima necessário para este público alcançar o seu tão desejado nirvana! Será que não existe justiça neste país? “E muitos são contra a pena de morte!!!”, pensou Adamastor.
Enquanto “B...” valorizava o ingresso, Adamastor sofria com seu vizinho, que falava cada vez mais alto, quer comentando o filme ou oferecendo aquelas malditas pipocas, e o cutucava cada vez mais forte. Adamastor já estava se levantando para ir embora quando, na próxima cena, surgiu o primo do galã (embora no começo do filme fosse o irmão) e, para estupefação do cinema, ele mostrou o seu, ahn, digamos, “referencial artístico”.
A natureza poderia ser sábia, mas, com certeza, tinha uma péssima noção de proporção! Todos no cinema sempre sonharam em nascer com um “referencial” semelhante... e o “referencial” do tal primo do galã reluzia, tremia, pulsava freneticamente como um pássaro pronto para levantar um vôo para as profundezas do céu!
- O cara é uma mula!!! - gritou o tal indivíduo, cheio de pipocas na boca.
Pela primeira vez Adamastor teve de concordar com seu irritante companheiro de banco. Mas nada poderia desviar a atenção dele naquele momento: as perspectivas de “B...” enfrentar aquilo eram demais para Adamastor! Ele sempre sonhara com uma mulher como “B...” sendo possuída por um cara com um “C...” daqueles! Ele queria ver aquele primeiro contato, o momento inicial... sempre procurara algo assim, quer nos cinemas ou alugando fitas de vídeo (escondido da família, logicamente), e jamais encontrara. Agora, num cinema horroroso, com um “vizinho” de cadeira pior ainda, ele teria o seu sonho concretizado! O começo do ato, aquele momento único, estava ali, na sua frente! A outra sessão com o mesmo filme não poderia recuperar a magia daquele momento!
Na hora que seus sonhos estavam sendo concretizados, seu vizinho levantou-se, parou na sua frente e, gentilmente, perguntou:
- Vou comprar mais pipoca... o senhor também quer um saquinho?
Toda a consciência cristã de Adamastor morreu naquele segundo. Ter seus ouvidos ofendidos por comentários idiotas, ser cutucado por um cotovelo ossudo e tomar “banhos” de pipocas vindas daquela boca suja eram situações aceitáveis - guerras foram evitadas por razões menores a estas. Mas ficar na frente do grande sonho de sua vida foi demais! Tudo pode ser recuperado, menos o momento crucial de um sonho... e o momento estava perdido para sempre!
Adamastor começou a esmurrar a criatura sem dó ou piedade. Nada o detinha! O rastro de destruição não se limitou à estrutura física do pobre homem: várias cadeiras foram arrancadas do lugar, a “turma do deixa disso” também apanhou, o gerente ficou de olho roxo e sobrou até mesmo para a vendedora de ingressos. Foram necessários 13 homens da polícia armados para aplacar a fúria de Adamastor.
A briga foi notícia na televisão (chegou a ser mostrada até no Jornal Nacional!) e em todos os jornais e revistas do país. A manchete mais amena foi: “Casal de Bichas Brigam e Arrasam Cinema Pornô!” Não era verdade, mas por que dois homens sentados lado a lado num cinema pornô poderiam brigar? O mundo dava a resposta!
Adamastor foi despedido, perdeu a esposa, filhos, amigos... até o cachorro virou-lhe o focinho. Nunca mais seria o mesmo homem ou recuperaria seu prestígio. Bêbado, abandonado por todos (nenhuma igreja da região quis recebê-lo no seu ventre... ou em qualquer lugar que o seja!), na verdadeira “sarjeta” da vida, Adamastor apenas pensava numa coisa:
- Será que eles vão fazer uma continuação de   “A Grande B... Erótica de B...”?
Ele era um viciado incurável!