VELHICE
“Quando chega a velhice, deixamos de viver o presente e passamos a viver de recordações. “Chegamos” como uma carta ao seu destino; deixamos de ter caminho a percorrer. Resta-nos, unicamente, saber se a nossa passagem pelo mundo desencadeou turbilhões de penas e alegrias, ou se nossa vida não nos deixou uma única sensação”.
Um vagabundo toca em surdina
Knut Hamsun
Clube do Livro - 1948
Ah! A velhice! Deste fatal inverno que antecede a morte inexorável só os que morrem prematuramente, vítimas de crimes, acidentes, condenações penais, guerras e doenças ficam, involuntariamente, livres.
Também se livram os suicidas, mas voluntariamente, embora, segundo os estudiosos, com seu gesto o suicida não pretenda escapar da velhice ou buscar a morte, mas, por desespero, busca unicamente o fim dos sofrimentos que infelicitam sua vida. Também voluntariamente, os que se imolam em praça pública, os kamikazes e os homens bomba não fogem da velhice, simplesmente doam suas vidas em holocausto a um ideal, a um Deus ou à pátria em guerra, mas acreditando, fervorosamente, que renascerão para uma nova vida, plena de gozos e benesses. A enorme maioria, visionários que somos, mesmo aqueles que acreditam na sobrevivência da alma, almejamos não passar pelos desgastes naturais da velhice e tentamos retardar o mais possível nosso encontro com a morte inevitável.
E essa louca pretensão, causa da infelicidade de muitos velhos é, com boa fé, incentivada por médicos, psicólogos e familiares bem intencionados. Em vez de respeitarem a tendência do idoso de se isolar no seu canto preferido da casa para ficar revivendo as gratas lembranças que ainda não esmaeceram em sua desgastada memória, procuram incutir no seu espírito que ele não deve se entregar; que é preciso ter ambições, fazer planos para o futuro e pô-los em prática e que, para isso, é fundamental cuidar da saúde. Negam-lhe o direito de, já quase no fim da vida, render-se às dores físicas e ao desgaste natural dos sentidos e apegar-se à agradável companhia das boas lembranças, dos sentimentos ocultos e das fantasias. Na maioria das pessoas a lucidez da mente é mais longeva do que a integridade e a saúde do corpo.
Esses desalmados algozes tiram do velho o prazer das coisas que mais gosta: as frituras, a carne de porco, as gorduras em geral, as bebidas e o cigarro companheiro. Só não lhe tiram o prazer do sexo e até, recomendando o Viagra, o estimulam a praticá-lo, desequilibrando aquilo que a natureza e o tempo sabiamente equilibraram. Obrigam-no a enfadonhas e cansativas caminhadas diárias, contra o vento frio ou o sol inclemente. Vestem-no com ridículas roupas modernas; compram-lhe óculos bifocais e aparelho contra a surdez para forçá-lo a participar ativamente da vida em família, mas parecem ignorar que carinho, respeito e tolerância são condições necessárias e suficientes
respeito e tolerância são condições necessárias e suficientes para o bom convívio com os velhos.
Nas manhãs, vestido como um bufão – abrigo Adidas e tênis -, o avô, que foi o primeiro da casa a se levantar, tem que esperar, com paciência simulada, que chegue a sua vez de ler o Estadão, leitura que sempre acaba ficando para depois da caminhada. A pressa dos mais jovens prevalece.
Quando participa das conversas em família, depois de superado o problema da surdez, não são poucas as vezes em que suas observações são consideradas inconvenientes e façam com que os demais franzam os narizes e troquem olhares eloqüentes. Quando chega visita o velho é convencido a ficar em seu quarto para prevenir previsíveis vexames.
Por que implicar com a calma paz dos velhos? Se por acaso, à custa do sacrifício dos seus poucos prazeres lhe forem devolvidas as forças, as ambições e, conseqüentemente, as carências da mocidade, como se sairia, com sua mente madura e a aparência envelhecida de seu corpo, na competição cotidiana com os realmente jovens, tanto no mercado de trabalho como na conquista das mulheres? Certamente sairia vencido, um perdedor, aí sim, um infeliz frustrado.
Portanto eu encarecidamente peço: no meu inverno deixe que eu me aqueça à minha maneira, deixem que eu viva como quero, e em paz, o tempo que me resta. A vida já me deu todas as chances, e, se eu não as aproveitei, foi por minha exclusiva culpa. Disse culpa e não vontade, pois bem que tentei aproveitar as oportunidades que surgiram, mas fatores adversos, imprevistos por mim, somados à incompetência, foram as causas reais, e únicas, de alguns fracassos. Mas até esses tiveram seu valor. As frustrações resultantes geraram emoções e, assim como as alegrias dos sucessos, agitaram meu coração. Para ilustrar peço licença ao autor (por mim desconhecido), para usar sua poesia:
Quem passou pela vida em branca nuvem
Em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça
Quem passou pela vida e não sofreu
Foi espectro de homem, não foi homem
Só passou pela vida, não viveu!
Hoje eu sou um velho. Inapelavelmente velho. E pergunto: O que seria dos velhos sem suas lembranças? Restaria a esperança? De quê? De vida perpétua? P’ra quê? Minha mala já está quase feita: já plantei árvores, tenho filhos e um livrinho, que estou terminando de escrever, irá inteirar minha bagagem. Então, com a missão cumprida, me entregarei às minhas excentricidades, às minhas lembranças, enfim, à minha velhice, que espero continue a ser feliz, serena e sem muitas dores, até que chegue a minha hora de desembarcar. |